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A inteligência artificial está acelerando uma transformação nas estruturas organizacionais. Em busca de agilidade, produtividade e redução de custos, empresas reavaliam camadas de gestão e o papel da gerência média. A questão central vai além de quantos cargos podem ser eliminados: quando uma camada desaparece, o trabalho que ela realizava continua existindo. Decisões, alinhamentos, desenvolvimento de pessoas, gestão de conflitos e conexão entre estratégia e execução precisam permanecer sob responsabilidade de alguém.
Sumário
A inteligência artificial acelera uma mudança estrutural
Em outubro de 2024, a Gartner projetou que, até o fim de 2026, uma em cada cinco organizações usaria inteligência artificial para achatar estruturas e eliminar mais da metade dos cargos atuais de gerência média. Trata-se de uma previsão sobre o uso futuro da IA, e não de um retrato de que essa redução já ocorreu em todas as empresas.
Em pesquisa da Korn Ferry com 15 mil profissionais de dez países, 41% relataram que suas organizações reduziram níveis de gestão. Entre os respondentes, 37% disseram sentir falta de direcionamento depois das mudanças, enquanto 72% dos executivos seniores relataram estresse ou sobrecarga. Esses dados indicam um risco importante: simplificar o organograma sem redesenhar responsabilidades pode transferir pressão para quem permanece.
O trabalho permanece quando a camada da gerência média desaparece
A gerência média costuma conectar a direção estratégica à operação cotidiana. É nessa camada que prioridades são traduzidas em planos, decisões ganham contexto, os times recebem orientação e problemas sobem à liderança antes de se tornarem crises. A tecnologia pode apoiar análises, automatizar tarefas e ampliar a velocidade de acesso à informação. Ainda assim, a responsabilidade por interpretar cenários, estabelecer prioridades, conduzir conversas difíceis e mobilizar pessoas precisa estar claramente atribuída.
Quando uma empresa elimina posições sem revisar o desenho do trabalho, como está acontecendo com a gerência média, as atividades tendem a se dispersar entre a alta liderança, especialistas e profissionais que ainda estão desenvolvendo repertório gerencial.O resultado pode ser uma liderança sênior sobrecarregada, profissionais sem orientação suficiente e decisões tomadas com menos contexto. Reduzir níveis pode fazer sentido; presumir que as responsabilidades desaparecem junto com os cargos é uma aposta arriscada.
O debate se conecta à transformação das práticas de sucessão tradicional para sucessão ágil, que exige olhar para as capacidades necessárias ao negócio e para a prontidão de quem pode assumir responsabilidades futuras.
Estruturas mais enxutas exigem decisões melhores
Uma estrutura com menos camadas pode aproximar decisões da operação, reduzir passagens de bastão e dar mais autonomia aos times. Para isso, a empresa precisa explicitar direitos de decisão, critérios de priorização, mecanismos de alinhamento e limites de autonomia. Sem essas definições, a organização corre o risco de trocar a burocracia do organograma por ambiguidades cotidianas.
Estrutura tradicional
Estrutura mais enxuta
Decisões sobem por várias camadas.
Decisões ficam próximas de quem tem contexto e responsabilidade.
A coordenação depende de passagens entre gestores.
A coordenação depende de acordos claros, prioridades e comunicação.
A sucessão considera capacidades, potencial e prontidão.
A redução de camadas também torna mais importante evitar decisões de promoção baseadas apenas em desempenho técnico ou tempo de casa.
Potencial e prontidão: dois olhares diferentes
Em cenários de transformação, identificar quem pode assumir responsabilidades ampliadas exige separar potencial de prontidão. Potencial ajuda a estimar a capacidade de crescer e lidar com desafios mais complexos. Prontidão considera o quanto a pessoa está preparada, hoje, para responder às exigências de uma função ou missão específica. Uma pessoa pode demonstrar potencial e ainda precisar de experiências, apoio ou desenvolvimento antes de assumir determinado papel.
A decisão fica mais consistente quando combina evidências sobre o perfil, o histórico de entregas, as experiências vividas, a complexidade do próximo desafio e as condições oferecidas pela organização. O objetivo é evitar promoções prematuras e a perda de profissionais capazes de crescer por falta de oportunidades bem desenhadas.
Desenvolver líderes antes de precisar deles
A sucessão ganha força quando deixa de ser uma resposta emergencial a uma vaga e passa a integrar a gestão do negócio. Isso significa oferecer experiências que desenvolvam julgamento, visão sistêmica, capacidade de priorização, conversas de desenvolvimento, gestão de conflitos e responsabilidade por resultados. Treinamentos ajudam, mas precisam estar conectados a desafios reais, acompanhamento e feedback.
A liderança em estruturas mais enxutas precisa criar clareza e confiança, além de distribuir responsabilidade de forma coerente. Quando as pessoas entendem o que se espera delas, têm espaço para agir e recebem retorno sobre suas decisões, a autonomia deixa de ser apenas uma palavra no desenho organizacional.
Organogramas podem ser redesenhados em semanas; hábitos de decisão e relações de trabalho levam mais tempo para mudar. Se a cultura centraliza decisões, penaliza erros e premia o controle, uma estrutura com menos níveis pode aumentar a fila de aprovações na alta liderança. Se a estratégia pede velocidade, colaboração e responsabilidade, os comportamentos cotidianos precisam sustentar essas escolhas.
O futuro do trabalho exige escolhas conscientes
O Fórum Econômico Mundial estima, no Future of Jobs Report 2025, a criação de 170 milhões de postos de trabalho e o deslocamento de 92 milhões até 2030. O relatório também aponta que cerca de 39% das habilidades atuais devem mudar ou se tornar obsoletas no período. A transformação do trabalho envolve tecnologia, aprendizagem, mobilidade e redesenho de responsabilidades.
Para as empresas, a pergunta útil vai além de quantas posições podem ser eliminadas. É preciso decidir quais atividades devem ser automatizadas, quais responsabilidades precisam de julgamento humano, como o trabalho será distribuído e quem está preparado para assumir cada parte. A eficiência sustentável nasce do alinhamento entre estrutura, capacidades e cultura.
A gerência média vai acabar?
O cenário aponta para uma transformação da gerência média, com diferenças importantes entre empresas, setores e modelos de negócio. Algumas organizações podem reduzir posições; outras vão redesenhar o escopo gerencial ou criar papéis com mais autonomia e maior responsabilidade por resultados. A questão essencial é se a organização consegue preservar as funções de coordenação, desenvolvimento e conexão entre estratégia e execução.
Antes de cortar camadas, vale mapear o trabalho realizado por elas, esclarecer quem assumirá cada responsabilidade e avaliar a prontidão das pessoas envolvidas. A estrutura mais adequada é aquela que permite executar a estratégia com clareza, velocidade e capacidade de desenvolver as pessoas que sustentarão o próximo ciclo do negócio.
A solução da People & Results
Preparar a nova geração de líderes exige critérios claros para avaliar a prontidão e orientar o desenvolvimento de cada profissional. A People & Results apoia as empresas nesse processo por meio do Mapeamento de Potencial para Promoção e Sucessão.
Conheça também nossa solução de Mapeamento de Prontidão, que ajuda a identificar profissionais preparados para assumir novos desafios e aqueles que ainda precisam desenvolver competências para chegar lá.
A inteligência artificial vai substituir os gerentes médios?
A IA pode automatizar tarefas, apoiar análises e alterar a quantidade ou o escopo de posições gerenciais. O impacto depende do desenho organizacional, da natureza do trabalho e das decisões tomadas pela empresa. Atividades como priorizar, desenvolver pessoas, resolver conflitos e alinhar estratégia à execução precisam continuar atribuídas com clareza.
Qual é a diferença entre potencial e prontidão para liderança?
Potencial se refere à capacidade de assumir desafios mais complexos ao longo do tempo. Prontidão diz respeito à preparação atual para uma responsabilidade específica. Distinguir os dois conceitos ajuda a planejar experiências de desenvolvimento e decisões de sucessão.
Como preparar profissionais para assumir responsabilidades maiores?
Combine avaliação de potencial e prontidão com experiências práticas, feedback, acompanhamento e clareza sobre os resultados esperados. O desenvolvimento precisa estar ligado aos desafios reais que a pessoa terá de enfrentar.
O que uma empresa deve avaliar antes de camadas de gestão?
Mapeie as atividades e decisões realizadas em cada camada, defina responsabilidades futuras, avalie a capacidade das lideranças e ajuste os mecanismos de comunicação, autonomia e acompanhamento. A redução de níveis precisa vir acompanhada de um desenho de trabalho coerente com a estratégia.
AUTORA [Maria Candida Baumer de Azevedo]
Sócia-fundadora da People & Results. Administradora (UFPR), Mestre em Cultura Organizacional (COPPEAD-UFRJ) e PHD em Carreira (The Netherlands). Mais de 20 anos de experiência, atuou como executiva em grandes empresas, é professora da Fundação Dom Cabral, ESALQ e Insper e mentora do G4 Educação.