[Home > Blog > A Cultura da Amazon por trás dos US$638 bi]
Uma empresa pode escrever seus valores em uma parede. Pode colocá-los no site, no manual de integração e até transformá-los em uma bela apresentação para o conselho. Mas o que acontece quando esses valores precisam orientar uma decisão de verdade? Vamos entender com o exemplo da cultura da Amazon.
Na Amazon, cultura aparece justamente aí. A empresa fechou 2024 com US$ 637,9 bilhões em vendas líquidas. Em agosto de 2026, alcançou pela primeira vez uma avaliação de mercado de US$ 3 trilhões. São números que ajudam a dimensionar o tamanho do negócio, mas não explicam sozinhos como a empresa chegou até aqui.
Uma parte dessa história está na maneira como a Amazon transformou cultura em critério para contratar, avaliar, promover e decidir. É uma diferença importante. Cultura declarada orienta discurso. Cultura usada como critério orienta comportamento.
Sumário
Os princípios que saíram da parede
A Amazon trabalha atualmente com 16 Leadership Principles, os princípios de liderança que orientam como a empresa conduz seus negócios, lidera e toma decisões. Amazon Leadership Principles
Entre eles estão Customer Obsession, Ownership, Invent and Simplify, Learn and Be Curious, Hire and Develop the Best, Insist on the Highest Standards, Dive Deep, Have Backbone; Disagree and Commit e Deliver Results. Em 2021, a Amazon acrescentou dois princípios à lista: Strive to be Earth’s Best Employer e Success and Scale Bring Broad Responsibility.
O ponto mais interessante, porém, está menos na lista e mais no uso que a empresa faz dela. Os princípios são utilizados como referência para avaliar candidatos. Também aparecem na forma como os profissionais são avaliados e como decisões são tomadas.
Ou seja, a cultura entra no processo. Esse é o salto que muitas empresas deixam pelo caminho. Definem valores, comunicam valores e depois deixam as decisões cotidianas seguirem outra lógica. A Amazon fez o movimento contrário: levou os princípios para dentro das decisões.
O Bar Raiser protege a régua
Talvez o exemplo mais claro seja o Bar Raiser. O programa surgiu em 1999, quando a Amazon estruturou seu processo de contratação para elevar o padrão a cada nova contratação. A lógica é direta: cada pessoa contratada deveria elevar a régua em relação a pelo menos 50% de seus pares em posições semelhantes.
O Bar Raiser é um entrevistador treinado que, em geral, vem de outra equipe. Ele entra no processo como uma terceira parte objetiva. Também atua como guardião dos Leadership Principles. E há um detalhe que muda completamente a força desse mecanismo: o Bar Raiser pode exercer poder de veto sobre a contratação.
Imagine a situação: o gestor está com uma vaga aberta há semanas, a área está pressiona, surge uma pessoa tecnicamente boa, disponível e aparentemente adequada (existe urgência para fechar a posição). Mesmo assim, alguém de fora daquela área pode questionar: Essa contratação realmente eleva o padrão que queremos manter? É aí que cultura deixa de ser um discurso bonito e passa a ter consequência. A urgência do gestor encontra uma régua institucional.
Cultura também é quem entra
Esse mecanismo revela algo importante sobre gestão de cultura. Toda contratação é também uma escolha cultural. Quando uma empresa escolhe quem entra, escolhe comportamentos que passarão a circular dentro dela. Quem será referência? Quem será promovido? Que comportamento será tolerado? Que tipo de pessoa terá espaço para crescer? O que será considerado uma boa entrega? Essas respostas formam a cultura com muito mais força do que uma apresentação de valores.
A própria Amazon afirma que os Leadership Principles são parte da base de sua cultura e ajudam a manter padrões e consistência entre diferentes funções e geografias.É exatamente por isso que o processo de seleção merece tanta atenção. Contratar alguém é também decidir que tipo de comportamento a organização deseja multiplicar.
Jeff Bezos deixou outra pista importante nas cartas anuais aos acionistas. Em 2015, ao falar sobre cultura corporativa, escreveu que uma empresa pode registrar sua cultura, mas que, ao fazer isso, está descobrindo e revelando aquilo que já foi construído ao longo do tempo. Para Bezos, a cultura se forma lentamente pelas pessoas, pelos acontecimentos e pelas histórias de sucessos e fracassos que passam a fazer parte da organização. Um ano depois, veio o conhecido conceito de Day 1.
Para Bezos, Day 2 representava estagnação, seguida por perda de relevância e declínio. A resposta da Amazon era manter a mentalidade de Day 1, mesmo em uma organização gigantesca. Isso é mais do que uma frase de efeito. Quando uma ideia é repetida em prédios, reuniões, documentos e decisões, ela passa a funcionar como um ritual cultural. A mensagem é simples: tamanho não deveria significar acomodação.
Aqui aparece outra questão relevante para qualquer empresa em crescimento: Quais comportamentos precisam continuar existindo quando a organização já ficou muito maior do que era quando sua cultura começou a se formar?
Quando a régua alta cobra seu preço
Seria confortável olhar para a Amazon apenas como um caso de sucesso cultural. Seria também uma leitura incompleta.
Em 2015, o New York Times publicou a reportagem Inside Amazon: Wrestling Big Ideas in a Bruising Workplace, baseada em entrevistas com mais de 100 profissionais atuais e antigos da empresa. O texto descreveu uma cultura de alta pressão, cobrança intensa e padrões elevados.
A própria Harvard Business School transformou o caso em material de estudo com o título Amazon: Cult or Culture? O caso discute justamente a relação entre a cultura construída por Bezos, as práticas de gestão e a capacidade da empresa de preservar esse modelo à medida que crescia.
Existe uma tensão interessante aí. A mesma cultura que pode sustentar velocidade, ambição e alto padrão também pode produzir efeitos indesejados quando a exigência perde equilíbrio. Alta performance exige régua, mas régua alta, sozinha, não produz uma cultura saudável.
Fica a pergunta, qual é o custo de manter essa régua e quem está pagando essa conta?
O que vale trazer para a sua empresa
Copiar a Amazon seria uma decisão bastante questionável. A escala é diferente. O mercado é diferente. A estratégia é diferente. A história é diferente e o aprendizado está em outro lugar.
Na Amazon
Pergunta para sua empresa
Leadership Principles orientam decisões
Quais comportamentos realmente pesam nas decisões?
Bar Raiser participa das contratações
Quem protege a régua cultural quando existe pressão por contratar?
Day 1 funciona como ritual
Quais rituais reforçam diariamente o jeito de trabalhar?
Padrões elevados fazem parte da cultura
A exigência está produzindo performance ou desgaste?
Cultura influencia quem entra
O processo seletivo está fortalecendo ou enfraquecendo a cultura?
Cultura precisa aparecer onde dói
Uma cultura realmente relevante aparece justamente nos momentos em que existe alguma coisa em jogo:
É por isso que cultura organizacional precisa ser observada nas práticas, nos símbolos, nos rituais, nos valores vividos e nas escolhas concretas da organização.
A cultura Amazon interessa menos como modelo a ser copiado e mais como provocação: o que a sua empresa faz hoje para transformar cultura em critério de decisão?
Quando a cultura precisa sair do discurso
Se a cultura da empresa precisa sustentar uma nova estratégia, crescer junto com o negócio ou corrigir comportamentos que começaram a comprometer resultados, o primeiro passo é entender qual cultura existe de fato, antes de decidir qual cultura deveria existir.
O Diagnóstico de Cultura da People & Results identifica elementos culturais que funcionam como alavancas e aqueles que atuam como obstáculos à estratégia, oferecendo à liderança uma visão mais precisa do que precisa ser preservado, fortalecido ou transformado.
A cultura Amazon é orientada por 16 Leadership Principles que descrevem como a empresa conduz seus negócios, lidera e toma decisões. Esses princípios também participam de processos como contratação e avaliação de profissionais.
O que são os Leadership Principles da Amazon?
São 16 princípios que orientam comportamentos e decisões na Amazon. Entre eles estão Customer Obsession, Ownership, Learn and Be Curious, Hire and Develop the Best, Insist on the Highest Standards e Deliver Results.
O que é o Bar Raiser da Amazon?
É um entrevistador especialmente treinado que participa do processo seletivo como uma terceira parte objetiva, geralmente vindo de outra equipe. O Bar Raiser atua como guardião dos Leadership Principles e ajuda a avaliar se a contratação eleva o padrão da organização.
O Bar Raiser pode vetar uma contratação?
Sim. Uma publicação da AWS sobre o programa afirma que os Bar Raisers possuem poder de veto no processo de contratação. O papel também envolve garantir que a avaliação considere os Leadership Principles e que a decisão preserve o padrão de contratação da empresa.
Por que o Day 1 é importante para a cultura Amazon?
O conceito de Day 1 representa a mentalidade de manter vitalidade, velocidade e disposição para inovar mesmo quando a empresa cresce. Jeff Bezos contrapôs Day 1 a um processo de estagnação que poderia levar à perda de relevância.
O que empresas podem aprender com a cultura Amazon?
Uma das principais lições é transformar cultura em critério concreto de decisão. Isso pode envolver contratação, promoção, reconhecimento, rituais de liderança e definição de comportamentos que sustentam a estratégia. rituais
Como fazer um diagnóstico de cultura organizacional?
O diagnóstico deve observar como a cultura funciona de fato, identificando elementos que apoiam a estratégia e aqueles que criam obstáculos. A análise pode considerar práticas, valores vividos, símbolos, rituais, comportamentos e outros componentes culturais.
AUTORA [Maria Candida Baumer de Azevedo]
Sócia-fundadora da People & Results. Administradora (UFPR), Mestre em Cultura Organizacional (COPPEAD-UFRJ) e PHD em Carreira (The Netherlands). Mais de 20 anos de experiência, atuou como executiva em grandes empresas, é professora da Fundação Dom Cabral, ESALQ e Insper e mentora do G4 Educação.